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Review: Das memórias ao futuro – uma audição dos Orelha Negra

 
15.07.2010 - 11:07

“As canções que vamos apresentar têm uma ordem numérica, que não obedeceu a nenhum critério especial, mas apenas a um sorteio. Teremos, portanto, canções de 1 a 12, além dos títulos respectivos, com o intuito, também, de estimular os nossos compositores e, simultaneamente, o aparecimento de novas melodias.”

Assim que colocar o CD de estreia dos Orelha Negra num leitor e carregar no play, é isto que vai ouvir. Estranho e original, uma descrição simples do que é um disco. Do que é este disco.

Imaginemos, então, que estamos a ouvir o álbum pela primeira vez e que nada sabemos deste grupo, ainda recente no panorama português. Vamos ver até onde esta viagem nos vai levar. Sem preconceitos.

A primeira faixa – Memória – continua e o aviso inicial dá origem a um «recorte» sonoro de excertos de entrevistas feitas a outros artistas. Tal e qual um caderno de memórias com colagens de bocados de jornal. Mas tudo isto transposto do universo físico para o sonoro. Ao fundo, uma linha de baixo e outros efeitos sonoros a acompanhar. Os instrumentos vão, aos poucos, juntando-se e a quantidade sonora crescendo. Ao fim de quase três minutos, é cortada a palavra falada e a música dá entrada em palco. Essencialmente instrumental, com uns efeitos vocais a pontuar a faixa, a melodia soa a funk. Termina, misteriosa tal como começou, com vozes a dizer «negra».

Para já, tudo é surpresa e inesperado. Não conhecemos o trabalho nem o grupo e não sabemos o que nos espera nas restantes faixas. Segue-se, então, Bairro Blue, onde, mais uma vez, o funk (mais electrónico do que acústico) predomina.

Lord vem tirar as dúvidas: trata-se de um disco baseado, principalmente, no funk. No entanto, os ingredientes são variados e as influências também. Um bocadinho de blues aqui, uma dose de samplers ali, polvilhado com uns apontamentos vocais «et voila»! Neste tema, uma linha de baixo faz-nos lembrar os westerns, nas alturas em que o cowboy entra no bar e se depara com o seu inimigo, e se prepara para empunhar a pistola.

A Força da Razão introduz um bocadinho de hip-hop, muito ao de leve, ou não fosse Sam the Kid um dos membros da banda. Para além da sonoridade da música, também a temática nos aproxima da cultura urbana e dos ideais que servem de bandeira ao hip-hop, com a deixa «o povo é o poder».

961 919 169. Não, não se trata de um número de telemóvel. Não vale a pena tentar ligar porque é apenas o nome de mais uma música. Como até agora, há algo de norte-americano em todas as faixas. Neste caso, são as vozes que cantam apenas «sweet love» que nos transportam para um cenário duma cave dum bar, onde se cantam alguns temas funk, algures em Nova York; ou, quem sabe, o reviver de algum concerto de James Brown.

Tanto Tempo retoma um pouco da faceta hip-hop, mas apenas no início. Um tema sobre a solidão? Bem possível. O facto de estas músicas serem predominantemente instrumentais permite que cada um faça as suas interpretações.

Em Futurama surge um excerto televisivo de um programa sobre o universo que, poderia ser, por exemplo, de Carl Sagan. Serve de introdução para um tema bem futurista, com samplers e arranjos electrónicos que poderiam traduzir os ruídos feitos pelas armas de Star Wars, mais uma vez, numa interpretação muito livre.

Tripical e M.I.R.I.A.M. mantêm o género e em Saudade, outra vez um excerto televisivo, desta vez português, em que um apresentador (júlio Isidro) pergunta ao artista se “o tema Saudade tem um significado especial” para ele. Não foi, de certeza, aos Orelha Negra que a pergunta foi feita. Foi, aliás, aos Jarojupe, no programa Febre de Sábado de Manhã. Mas fica este apanhado, algo humorístico. O tema desenrola-se a partir daqui, calmo, fazendo jus ao nome.

Saudade essa que fica curada no tema seguinte. Cura é dinâmica e contrasta bastante com a faixa anterior.

O álbum termina, de forma energética, com We’re Superfly.

O disco tem um estilo livre, instrumental, com uma grande mistura de sons, ritmos e influências. A interligação entre a parte instrumental, electrónica e vocal surge com uma enorme naturalidade.

Este é um projecto que se caracteriza pela novidade e originalidade. Não é um trabalho que se pareça preocupado com as vendas, com as rádios, com o sucesso. É para ser devidamente apreciado, claramente fora do circuito mainstream. Num lounge, num fim de tarde de Verão ou numa noite quente, calma, com a companhia de um cocktail e num cenário paradisíaco é bem capaz de ainda saber melhor.

Para além das novidades que a música traz, também o grafismo é, no mínimo, diferente. Os rostos dos membros do grupo não são revelados, ficando escondidos atrás de capas de vinis. A informação dada é quase nenhuma. No livrete apenas um rectângulo dividido em 12 quadrados, cada um para uma música. No entanto, não há dados, apenas uma foto que, de certa forma, ilustra o tema. Cada imagem é completada, mais uma vez, por capas de vinis. 

Retomando as ideias transmitidas na primeira faixa (Memória) com os exercetos de entrevistas televisivas, surge, agora que já conhecemos o álbum todo, uma pergunta: para quê as palavras e as explicações vagas acerca do que é o trabalho, o som, os projectos quando se pode ouvir, simplesmente, o que a música nos diz?

Ágata Ricca

 
 
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