Era uma vez uma menina que tinha uns sapatos vermelhos... Não se trata de Dorothy, nem do conto “O Feiticeiro de Oz”. Nesta história a personagem principal é uma menina que se tornou mais forte através da sua música e não do seu calçado encantado. Rita Redshoes é essa menina, que cresceu aos olhos de todos nós e que está, agora, mais madura.

Depois de “Golden Era”, lança o novo álbum, onde adapta sonoridades mais fortes como o rock n’ roll, algo que o single Captain of my Soul não deixa transparecer. Apesar de este tema ter um refrão que fica no ouvido, é das músicas com menos personalidade do álbum. É uma canção demasiado simples, que não deixa antever o que “Lights & Darks” esconde.
Cowboys, saloons, desertos vermelhos... Uma quantidade interminável de reminiscências do cenário do velho Oeste. Este novo disco tem muito mais do que umas simples melodias para oferecer. Temas como Bad Lila, Marching In This Life e One Cold Day são carregados de sonoridades rock, que se constatam, desde logo, na primeira música, Hearted Man, que relembra tardes passadas numa pequena vila americana.
Holy Ghost é uma música que passa despercebida devido ao seu tamanho e insignificância, quando ouvida separa do resto do disco. Contudo, quando ouvida no contexto do alinhamento, adquire significado, pois surge como uma espécie de catarse, devido ao cântico do coro de igreja. No fundo, prepara o ambiente para uma das melhores baladas que Rita já compôs. I’m On The Road To Happiness é um tema que nos toca, quer pelas palavras pronunciadas por Rita, quer pela melodia conduzida por uma suave batida infligida pela mão da artista, ou pelo choro da guitarra eléctrica.
Depois de “abrir a porta e partir”, Rita embrenha-se numa viagem a cavalo rumo ao deserto norte-americano. Jungle 81 tem pouco do ambiente da selva, sendo a batida de tambores o único elemento a relembrar esse cenário. Os restantes elementos sonoros, como o barulho de umas castanholas que se assemelham ao galopar de um cavalo, fazem-nos imaginar uma cruzada de um cowboy qualquer, em algum Western.

O que “Lights & Darks” tem de de luz, também tem de trevas. Wich One Is The Witch traz as sombras e o obscuro graças aos assobios dos músicos e ao cantar agudo da artista que relembra o chamamento de um fantasma. Já It’s a Honeymoon é um tema cheio de amor e boa disposição que nos lembra um casal apaixonado deitado nas praias de areia branca e água límpida, algures no Hawaii.
Ao longo do álbum todo, vamos ouvindo o dedilhar das cordas de um banjo, um elemento novo nas músicas desta artista. Esse som torna-se mais evidente no tema You Should Go, uma balada semelhante às de Golden Era, mas agora com o acrescento de novos instrumentos. O saxofone tocado no tema One Cold Day e o trompete de I’ll Remember To Forget são outra novidade nas músicas de Rita Pereira.
Além de tocar uma panóplia de instrumentos Rita conta ainda com uma voz pouco lírica, mas muito melodiosa, que mesmo sussurrada ou falada nos embalada. A prová-lo estão músicas como You, Rising Son e Waves of Emotion, que, além disso, nos fazem ter a certeza que a verdadeira mestria da artista está na escrita e composição das canções, muito mais do que em interpretá-las.
“Lights & Darks” é um álbum muito mais roqueiro, à semelhança do trabalho de artistas como Cat Power, cantora à qual a portuguesa foi muitas vezes comparada. No entanto, o estilo tão próprio de Rita Redshoes encontra-se distante do rock mais cru e rouco de Chan Marshall. Apesar de ser um álbum mais forte e maduro, o segundo disco de Rita Redshoes transpõe ainda muito da personalidade daquela menina sonhadora que calçava uns sapatos vermelhos.
Independentemente da cor do calçado, Rita Redshoes aparece neste álbum como a prova de que as meninas bonitas” também conseguem tocar rock.